Notícias Vida Breve

Novidades e notícias sobre as atividades da ONG.

Ta na vila!
Era noite do dia 07 de Julho de 2020.
Chovia torrencialmente já há mais de 12 horas.
Porém, como a última grande inundação decorre do longínquo 2001, e após isso o rio Paranhana mudou seu curso, arroios vacinais foram encanados e dezenas de terrenos foram nivelados para cima, a preocupação era bem outra.
A pandemia chegou na vila.
Adentrou para dentro de ruas de mão única, enveredou por trilhos estreitos e alcançou os “condomínios” periféricos.
Invadiu as moradias precárias dos nossos atendidos.
Eram 23h40min, quando após planejar como continuar atendendo em meio a um possível surto do Covid 19 no bairro, pois não há como separar minha casa ou minha família do trabalho já que ambos compõem a ONG, decidi tomar o último café da noite.
Eram exatas 1h55min de 08 de Julho de 2020, quando acordei com a voz da Fátima:
__Os cachorros estão acoando diferente”!
__ É acôo de enchente!
Não são acôos, são latidos… Pensei comigo. Kkkkk
Ao longe já ouvíamos falas alteradas e afoitas.
Os latidos (uivos) dos cães prenunciam eventos naturais iminentes.
Os mesmos sinais de outras épocas da minha vida em que perdemos literalmente tudo.
Então por precaução ficamos de “tocaia” na sacada.
Madrugada fria e chuvosa.
Eram 02h50min quando um filete de água estacionou no meio fio em frente à ONG.
Mesas, cadeiras, bancos, flores, piscinas e brinquedos de crianças no pátio átoa.
E desce chuva.
Cantina “cheia” e no nível do solo.
Sala das oficinas, vestiários, Baú dos materiais escolares, equipamentos de som diversos, Jukebox e cabeamento de força do laboratório de informática no nível do assoalho, a 2 palmos para cima do pátio.
Apartamento da minha mãe (84 anos) nos fundos, igualmente a alguns centímetros do solo.
Nossa casa a 3 palmos de altura.
Danou-se os móveis.
Ignoramos todo “os fundos”, incluindo nossa moradia.
O alarde de conversas e latidos eram tão audíveis quanto à chuva, nesta altura do thriller de acontecimentos.
Desmontei o som principal da ONG o mais rápido que pude, dadas as minhas limitações físicas.
Afinal, não tenho “Histórico de Atleta”!
A água já havia tomado conta da sede e ameaçava molhar o tapete da porta 7.
O restante da minha família carregando materiais e demais equipamentos de som escada acima.
Perdemos a garrafa de café.
Portanto a situação passou de grave para gravíssima!
Eram exatas 03h23min quando a água gelada e turva da enchente “invadiu geral”.
Depois de quase 20 anos.
Em 20 minutos.
A vila isolada.
Madrugada fria e chuvosa.
Ninguém ajuda ninguém.
Em eventos assim é cada um por si.
Nenhum maluco vem do lado de fora.
Não tem como entrar.
E ninguém sai do lado de dentro.
Não tem como sair.
Um terço de uma hora.
Não mais do que isso.
E foi tempo suficiente para famílias perderem tudo.
Décadas de lutas em 20 minutos
No meio de uma Pandemia.
Que prevaleça a vida.
As 13h do dia 08 a água foi embora.
Ficou a lama, o vento gelado e pequenas poças além de móveis e equipamentos pelo chão.
As 14h chegou o primeiro grupo no portão.
Não só a ONG nem minha família perdeu, mas sim toda uma comunidade.
Passados além dos 30 dias de muito voluntariado, trabalho comunitário e alto fluxo de gente
na ONG com filas extensivas até a ERS 115, e sanadas as necessidades emergenciais, a
comunidade “urge” de novo.
Que prevaleça a vida!

Autor: Airton Schirmer

Airton Schirmer - ONG Vida Breve